Eagles, com um propósito maior do que qualquer opinião

Uma das narrativas favoritas dos argumentistas de cinema é garantir que para cada herói existe um vilão, uma das grandes certezas que nós temos no mundo desportivo é de que para cada vencedor existe sempre um vencido. 

Aquilo que este jogo, entre Philadelphia Eagles e Kansas City Chiefs nos demonstrou, é que na realidade dois heróis até podem conviver, não tendo de ser necessariamente o vilão um do outro, mas que no final do dia é empírico de que apenas um pode realmente vencer.

A expectativa para a equipa dos Chiefs era de conseguirem celebrar o terceiro título consecutivo, afinal de contas estavam numa sequência de 17 vitórias nos últimos 18 jogos disputados (que interessavam) e tinham vencido os últimos 9 jogos disputados na fase a eliminar, têm sido implacáveis e eram tidos como os favoritos para a partida.

Do outro lado estavam os Eagles que depois da derrota de 2023 diante dos Chiefs, num Super Bowl disputado até ao último momento, ficaram com um amargo de boca, e de consciência, pois talvez as coisas poderiam ter sido diferentes se algumas jogadas tivessem ido a favor deles. Algumas equipas depois desse momento poderiam ter quebrado, poderiam ter virado a cara ao desafio, mas não esta equipa dos Eagles.

A história da primeira parte

Foi um jogo pautado pelo músculo da equipa dos Eagles, com uma das linhas ofensivas mais poderosas na história da NFL, a nível de peso e altura eram a maior a chegar a um Super Bowl, e através deles os Eagles foram colocando o jogo dentro do argumento que desejavam, correr a bola, fazer passes certeiros com o estóico Jalen Hurts e dessa forma controlarem o tempo e relógio da partida, garantindo assim que Patrick Mahomes tinha pouco impacto no jogo.

Mas o singular Mahomes teria sempre a sua oportunidade de brilhar, aquilo que ele talvez não esperasse era que a equipa defensiva dos Eagles, liderada pelo treinador Vic Fangio, trouxesse um dos melhores planos de jogo defensivo em anos recentes e, através disso, fosse retirando de forma sistemática Mahomes do relvado sem conseguir traduzir a sua presença em pontos.

No esforço absoluto de tentar fazer algo acontecer os erros ofensivos foram-se sucedendo e ao intervalo os Chiefs estavam enterrados numa desvantagem de 24 pontos sem terem conseguido marcar qualquer um e a projeção da lenda do herói Mahomes ganhava forma, pela positiva ou negativa.

Tempo para cantar, dançar e celebrar

Ao intervalo era hora de celebrar e aproveitar o momento com Kendrick Lamar que à boleia de Samuel L. Jackson nos levou a uma viagem pelo seu repertório musical, sempre com uma mensagem subliminar social e cultural e, naquela que é tida como uma das cidades mais multiculturais dos Estados Unidos, Novas Orleães.

O artista que conquistou 5 grammys já em 2025 não desiludiu e deu-nos um espetáculo que pautou pela componente minimalista mas com uma forte dose de intensidade, em particular pelo seu recém conflito com o artista canadiano, Drake.

O caminho para a vitória

Na segunda parte do jogo a expectativa era que o herói do passado recente, Patrick Mahomes, finalmente fosse capaz de encontrar os seus super poderes e com a mentoria daquele que se pode tornar o treinador mais vitorioso da história da NFL, Andy Reid, fossem capazes de responder em campo.

Mas a história de um herói nem sempre é linear, nem sempre consegue encontrar forma de responder e, por vezes, o herói acaba mesmo por cair, de forma humilde e neste caso de forma esclarecedora e dominante. Apesar de nunca terem virado a cara à luta, e apesar de terem conseguido marcar 22 pontos na segunda parte, os Chiefs viram os Eagles continuarem a marcar e o resultado final foi de 40-22 para uma vitória imperativa pela equipa de Philadelphia.

A grande figura do jogo acabaria mesmo por ser Jalen Hurts, quarterback dos Eagles, que tem pautado a sua carreira por provar aos outros que eles estão errados, pois na sua jornada de herói caiu muitas vezes, mas acabou sempre por seguir em frente, com uma mentalidade positiva e com foco naquilo que podia controlar, sem saber o que ia acontecer, esta vitória acabou por se traduzir no mais belo capítulo da sua carreira desportiva e com o prémio de MVP do Super Bowl a ser uma bonita consequência daquele que é o seu verdadeiro propósito: vencer acima de qualquer opinião ou expectativa.

Algumas curiosidades

  • Vic Fangio, treinador da defesa dos Eagles, finalmente vence um Super Bowl depois de 38 anos a treinar ao mais alto nível na National Football League.
  • Devonta Smith, jogador dos Eagles, torna-se apenas o 5º jogador da história a vencer o prémio de Heisman (melhor jogador de futebol americano universitário), um campeonato colectivo em futebol americano universitário e o Super Bowl.
  • Cooper DeJean torna-se o primeiro jogador da história a marcar um touchdown num Super Bowl, no seu primeiro ano na NFL e no seu dia de aniversário.
  • Darian Kinnard, jogador dos Eagles, torna-se apenas o 2º jogador na história da NFL a ganhar três Super Bowl consecutivos (2023 e 2024 com os Chiefs, 2025 com os Eagles).

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